Esse é o relato nem-um-pouco-fidedigno da minha tarde no consultório. Se espera por um acrescente algo à sua vida besta, recomendo veementemente os livros do Augusto Cury. Caso contrário, aproveite a leitura (que será chata pra porra, eu garanto).
O CONSULTÓRIO.
– Sala seis, senhor – disse-me a simpática atendente que me recebera na entrada da clínica.
Já fazia dois anos que não me consultava nem trocava meus óculos e, provavelmente por conta disso, a minha visão andava bem pior do que deveria. Um belo dia, cansado de ter de apertar os olhos para ler as legendas dos filmes, decidi dispender de alguns dinheiros em minha acuidade visual.
Chego no horário marcado e, de cara, local de espera me chama a atenção. A parede é toda tomada por desenhos com temas infantis e rodeada por frases e provérbios bíblicos. Descontando-se o ar-condicionado desligado em uma tarde de calor infernal, era um local bem agradável.
Chamou-me a atenção o fato de a sala da minha oftalmologista e do proctologista da clínica serem posicionadas frente-a-frente. Decerto algum engraçadinho, em todo o seu humor de péssimo gosto, o fez pensando nas piadas prontas que seriam proferidas por algum idiota (o foda é que, ao perceber a disposição das salas, o idiota aqui pensou em pelo menos duas). Por precaução, me certifiquei que a recepcionista não tinha errado na marcação dos horários e me mandado para o doutor cutucador de furicos (felizmente estava tudo certo).
Escolho uma cadeira próxima à porta da doutora. Ao meu lado há uma senhora e uma jovem que aparenta ter, no máximo, 18 anos.
– A doutora já tá atendendo? - pergunta a jovem.
– Não sei – responde a senhora completando em seguida: – Acabei de chegar.
– Ela demora? - insiste a garota: – Porque hoje eu já consegui liberação do meu chefe e tá cheio de coisa pra fazer lá no escritório. Até porque hoje é fim de mês e blá blá blá, blá blá blá, e os clientes, blá blá blá...
A jovem falava com uma ânsia que me parecia digna de alguém que sabe estar utilizando os seus últimos minutos de voz antes do iminente ataque de mudez eterna. Ela não perdia tempo com algo tão fútil como o fôlego. Mal inspirava, já emendava alguma abobrinha. Na ânsia de se comunicar ela tinha uma pressa tremenda.
Acho que um dia escreverei sobre essa coisa que leva uma pessoa a começar a contar sua vida a completos desconhecidos que encontram em filas de bancos, pontos de ônibus e (recentemente descobrira), salas de espera de consultórios. Falarei sobre esse impulso incontrolável de “bater dois dedinhos de prosa” com o próximo. Discutirei sobre essa força, poderosa o suficiente para romper a barreira da timidez, que nos leva a contar nossos medos, angústias e ambições. Essa força meus amigos pode ser definida como a incapacidade de manter a boca fechada ou, em bom português, de calar a porra da matraca, poupando os outros de sua ladainha insuportável.
Depois de alguns minutos, quando a falação da garota já tinha esgotado a paciência, escuto chamarem o meu número.
Entro na sala.
O consultório encontra-se em meia-luz e, apesar da penumbra, vislumbro um armário de metal e aqueles aparelhos cujos nomes desconheço (mas que os oftalmologistas sempre possuem).
Após uma rápida conversa de rotina ela me manda reclinar a cabeça “para pingar um pouco de colírio”.
Em poucos segundos senti como se duas gotas geladas de água de mar queimassem meus olhos.
– Toma – me disse a doutora enquanto me passava um pequeno pedaço de gaze. – Isso é para você enxugar os olhos.
Saio da sala com os olhos ardendo por causa do maldito colírio e, ao me sentar para esperar o líquido dos infernos fazer efeito, escuto uma nova conversa de dois senhores que esperavam a vez no proctologista cuja porta ficava em frente à da medica de olhos (sem maldade, pessoal. Por favor):
– A empresa mandou eu vir aqui fazer os exames e, quando ficar pronto, eu levo lá. “Tando” tudo certo, na “sigunda” eu já começo a trabalhar.”
Ok. Notam algo de estranho no diálogo acima? Onde, nessa merda de mundo, meu Deus, uma desgrama dum setor pessoal exige exame retal como parte da seleção de seus funcionários?! Estava pasmo. E, enquanto agradecia aos céus por não ter mandado currículo para a pervertida empresa em questão, sou novamente chamado pela médica.
Após alguns exames, ela me diz que continuo com miopia e como mesmo grau de sempre.
E isso é tudo. Não disse que era uma história sem graça?
Por que será que sempre há erros que escapam à edição e só aparecem depois de postados? Murphy explica, eu acho...
ResponderExcluirTem gente que é foda mesmo, conta TUDO! Só falta dizer a senha do banco!
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